Postado em 12/01/2018

A influência dos pais no desenvolvimento esportivo dos filhos é um dos temas mais estudados na Educação Física e, principalmente, no esporte competitivo. Também é um dos mais sensíveis e delicados de ser trabalhados. Tanto que, para Simões, Böhme e Lucato (1999), o incentivo dos familiares é fundamental. Em si, é demasiado complexo; depende de diversos fatores diretamente relacionados construtivamente em termos das necessidades dos familiares e das crianças/adolescentes. Contudo, essa relação nem sempre é harmônica e tranquila. Nos estudos que tratam dos motivos da prática esportiva, não é incomum, entre os fatores que provocam e potencializam o abandono esportivo, estarem os pais. Em sua tese de doutorado, Machado (1994) descreve os pais-torcedores em dois pólos, da seguinte maneira:

1. São os torcedores mais ácidos, revelam-se pessoas de uma cobrança acima da média e, devido a sua aproximação afetiva, exercem o direito de insultar, esbravejar e gesticular, como se, com tal atitude, os erros ou indecisões assistidos pudessem vir a ser eliminados da partida.

2. Os pais-torcedores silenciosos são tão perigosos quanto a versão anterior. Aqui, no silêncio, são armazenados todos os lances e premeditações da partida, para numa conversa posterior vir à tona, como uma cobrança pesada e impossível de ser paga. O silêncio da arquibancada significa o barulho ensurdecedor das discussões familiares. No lar, todos falam, todos palpitam, todos analisam e apresentam os resultados individuais assistidos, cabendo ao atleta consentir, calar ou partir para a defesa de sua opinião ou gesto, evidentemente que antevendo a derrota diante de argumentações tão hostis e banais.

Num estudo recente de Wagnsson e colaboradores (2016), eles detectaram uma relação importante dos pais, principalmente das mães, no desenvolvimento das tomadas de decisões morais nos jogos. Estamos diante de uma tessitura complexa que coloca em relevo o papel dos pais no sucesso na prática esportiva dos filhos e não se limita ao esporte de competição. Eles são fundamentais no desenvolvimento da cultura esportiva de seus filhos, mas, evidentemente, também devem compreender e ser integrados na cultura esportiva. Nesse cenário complexo, cabe uma pergunta: Os professores e treinadores estão preparados para lidar com as interferências dos pais? Principalmente por não ser possível apartar essa variável do cenário, de fato é quase impossível controlar a influência deles sobre os filhos, pois ela se estende para fora do ambiente esportivo.

Essencialmente, essa interferência trará seu foco sobre questões afetivas e emocionais, e, portanto, extremamente sensíveis, principalmente durante a adolescência, período de consolidação identitária e de busca de autonomia do jovem. Em minha dissertação de Mestrado foi possível verificar que a percepção dos atletas sobre a relação com os pais tinha efeitos significativos nos estados de humor e afetavam seu desempenho nos treinamentos (REBUSTINI, 2005). Desta forma, os treinadores e professores de educação física estão adequadamente instrumentalizados para interagir e educar esportivamente também os pais, já que a resposta adequada não é apartá-los do contexto e, sim, integrá-los ao sistema esportivo? Eles também têm de aprender com o cenário esportivo. Eles têm de aprender a lidar com suas emoções e com a importância de seus comportamentos no desenvolvimento dos filhos. Devem conhecer as interações do seu papel na formação.

Como apontado por Machado anteriormente, os dois extremos de comportamento são nocivos, e o comportamento autocrático do professor e/ou treinador apenas potencializa essas dinâmicas extremadas. Portanto, a modulação e as formas de conduta nas diversas situações esportivas são prementes para que se auxilie o desenvolvimento das crianças e jovens no esporte.

 

Fonte: http://www.educacaofisica.com.br/escolas/a-influencia-dos-pais-na-pratica-esportiva-dos-filhos-faz-toda-a-diferenca-no-futuro/ (com modificações).

 

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